ISAAC STAROSTA E NOSSA GERAÇÃO. OU VICE-VERSA.
Alberto Crusius de Porto Alegre
Agosto, 1966. Esta era a data que constava em página introdutória que esclarecia ser o livro Nossa geração uma Antologia poética dos universitários do Rio Grande do Sul.
Era uma edição bem cuidada, com apresentação de Donaldo Schüler, apenas genérica, isto é, com exame das características do todo daqueles poemas e a então infalível referência a 1922 e o modernismo brasileiro, e à chamada geração de 1945, hoje vista com o tédio da leitura da frase pronta. Ainda se estava longe, em datas, da abrangente análise que Schüler fará na obra A Poesia do Rio Grande do Sul, em 1987, de uma grande quantidade de poetas do estado.
Esta obra, aliás, ajudaria a compreender o que se passara com o crítico universitário diante da matéria a examinar na antologia Nossa geração: que surpresa aquela quantidade de poetas certamente apreciáveis, e quanto somos criticamente enrijecidos e duros para com o que é muito novo e, mais, vário, notadamente em poesia, onde a espontaneidade desenha continuamente novas formas que atordoam o preparo acadêmico e desatualizam muito da poética, restringindo o manifestar-se com empatia analítica abrangente, e até com o necessário pathos de que a verdadeira crítica não pode prescindir, sob pena de esterilidade perceptiva.
Isto que ocorre hoje com a poesia de Mário Pirata, ocorria desde aqueles tempos em que outros eram os novos – categoria que pode ser mantida, aliás, a qualquer idade, às vezes se desatualizando depois, ou se revelando indigno do caráter documental da palavra.
Mas a antologia Nossa geração em si tornou-se documento da nossa cultura poética. Alguns daqueles poetas adquiriram atenção imediata, limitada, como de hábito em se tratando de boa poesia (a expressão foi abandonada com razão, pois não existe má poesia, e sim ausência da mesma), a um círculo restrito.
Poetas com forte personalidade própria logo se tornaram alvo de culto para os reduzidos happy few da expressão de Beyle. Entre eles, Pedro Port, Reinaldo Portanova, Paulo Roberto do Carmo e Isaac Starosta, que se afastavam da regra apontada pelo apresentador do poema curto predominante no lote, e, mais do que isso, obtinham forte impressão, completamente diferenciada, junto ao leitor. Mas é, ainda ou talvez, a melhor antologia poética de autores gaúchos de anos que eram então recentes e hoje resvalam para a bruma histórica e tradicional de nossas cerrações a se fecharem ao final de cada ciclo da cultura em compartimento estanque de tempo e memória, em qualquer setor cultural. Havia ainda o corretamente lírico e regional Ernesto Wayne, por exemplo, e entre outros nomes a lembrar.
Claro, não existirá antologia realmente completa, e aquela não era exceção. Ali não está Carlos Saldanha Legendre, estreante há quatro anos, e isto basta para selar sua incompletude. Mas uma antologia não se faz notar só pelas ausências dos que devem ser lembrados, mas por presenças que se tornem inesquecíveis.
A série Ônix, de Reinaldo Portanova, certamente não pode ser esquecida. Portanova e Paulo Roberto foram os mais originais e impactantes. Pedro Port – como Isaac – permaneceu editando, embora com notável parcimônia, compensada pela alta qualidade. Paulo Roberto editaria Crisbal, o guerreiro, no mesmo ano, com ilustrações de Stockinger, num de nossos primeiros diálogos entre poesia e arte plástica, em que se obtinha um excelente interagir, o diálogo iniciando o fim do provincianismo e só voltaria a editar livros a partir de 1990, data do primeiro desta fase nova, intitulado Breviário da Insolência.
Em 1987, Schüler iria declarar, no já citado A Poesia no Rio Grande do Sul: “No ano em que surge O campeador e o vento (1966), aparece também Crisbal, o guerreiro, livro de estréia de Paulo Roberto do Carmo. O grito de guerra do estreante é bem mais vigoroso do que o de Nejar.” Como se vê, 1966 foi um ano e tanto, mesmo não se falando na Nossa antologia.
A própria antologia é, até hoje, apreciável.
Um caso raro, porém, era o de Isaac Starosta. Poeta pronto, um de seus poemas ali editados, Cemitério de Varsóvia, teve imediata repercussão, inclusive fora do âmbito dos apreciadores de poesia, mantendo-se poético, fato não freqüentemente simultâneo, e um poema até hoje lembrado.
O início do poema era marcante:
Cemitério de Varsóvia
alguém observa o soldado de pedra,
sal ardendo nos olhos.
São horas de alguma tarde cinzenta
Em quatro versos, o primeiro já era estritamente enxuto e cumpria a missão de musicalidade sem adereços, os dois seguintes mostravam o domínio de outra técnica, a imagística, meramente substituindo a palavra sol, que seria inadequada por óbvia – em poesia não há espaço para o que seja óbvio – e partindo para a imagem com função poética, onde o sal é lágrima, em palavra mais adequada, ainda, ao ritmo da frase. A manutenção de ritmo, mesmo em campo de imagística, em técnica habilmente superposta, denunciava a existência do poeta maior por trás do resto.
Foi preciso esperar até 1971 para surgir o primeiro livro de poemas de Isaac, Poemas ao Portador (Não consigo seguir a regra de dar a todas as demais palavras do texto em itálico iniciais minúsculas, é preciso que tenham o mesmo peso as duas palavras).
Como me tornara amigo do poeta, logo depois do lançamento, e um amigo de família, participei da escolha dos poemas, e até, sendo então um publicitário, aventurei-me a sugerir aquele título, que continuo apreciando, ao volume no qual se propunha leveza na leitura e profundidade não destituída de ironia na poesia.
Era uma estréia saudada com alegria pela cidade e pelo estado, e também pela necessária polêmica. Na forma como o conceito de poesia, sob um ponto de vista teórico, torna-se evidente, ele é falho a nível de lógica formal: poesia é o que não é prosa. É evidente que algo não pode ser definido apenas como o que definido está como sendo seu oposto, num mesmo plano conceitual. Uma evidência não é, ainda, um conceito.
E Isaac é, desde Drummond, um dos poetas que mais próximo está à linha de fronteira entre prosa e poesia, sendo um dos que correm, deliberadamente, riscos na área. Gosta de correr mantendo a perseguição ao limite, e brinca sobre ela.
Alguns dos poemas dísticos deste livro eram, também, inesquecíveis:
O amor vive
na gruta
ao acaso
(...)
Não esperes ir mais fundo
Nem com ele voar.
Agosto, 1966. Esta era a data que constava em página introdutória que esclarecia ser o livro Nossa geração uma Antologia poética dos universitários do Rio Grande do Sul.
Era uma edição bem cuidada, com apresentação de Donaldo Schüler, apenas genérica, isto é, com exame das características do todo daqueles poemas e a então infalível referência a 1922 e o modernismo brasileiro, e à chamada geração de 1945, hoje vista com o tédio da leitura da frase pronta. Ainda se estava longe, em datas, da abrangente análise que Schüler fará na obra A Poesia do Rio Grande do Sul, em 1987, de uma grande quantidade de poetas do estado.
Esta obra, aliás, ajudaria a compreender o que se passara com o crítico universitário diante da matéria a examinar na antologia Nossa geração: que surpresa aquela quantidade de poetas certamente apreciáveis, e quanto somos criticamente enrijecidos e duros para com o que é muito novo e, mais, vário, notadamente em poesia, onde a espontaneidade desenha continuamente novas formas que atordoam o preparo acadêmico e desatualizam muito da poética, restringindo o manifestar-se com empatia analítica abrangente, e até com o necessário pathos de que a verdadeira crítica não pode prescindir, sob pena de esterilidade perceptiva.
Isto que ocorre hoje com a poesia de Mário Pirata, ocorria desde aqueles tempos em que outros eram os novos – categoria que pode ser mantida, aliás, a qualquer idade, às vezes se desatualizando depois, ou se revelando indigno do caráter documental da palavra.
Mas a antologia Nossa geração em si tornou-se documento da nossa cultura poética. Alguns daqueles poetas adquiriram atenção imediata, limitada, como de hábito em se tratando de boa poesia (a expressão foi abandonada com razão, pois não existe má poesia, e sim ausência da mesma), a um círculo restrito.
Poetas com forte personalidade própria logo se tornaram alvo de culto para os reduzidos happy few da expressão de Beyle. Entre eles, Pedro Port, Reinaldo Portanova, Paulo Roberto do Carmo e Isaac Starosta, que se afastavam da regra apontada pelo apresentador do poema curto predominante no lote, e, mais do que isso, obtinham forte impressão, completamente diferenciada, junto ao leitor. Mas é, ainda ou talvez, a melhor antologia poética de autores gaúchos de anos que eram então recentes e hoje resvalam para a bruma histórica e tradicional de nossas cerrações a se fecharem ao final de cada ciclo da cultura em compartimento estanque de tempo e memória, em qualquer setor cultural. Havia ainda o corretamente lírico e regional Ernesto Wayne, por exemplo, e entre outros nomes a lembrar.
Claro, não existirá antologia realmente completa, e aquela não era exceção. Ali não está Carlos Saldanha Legendre, estreante há quatro anos, e isto basta para selar sua incompletude. Mas uma antologia não se faz notar só pelas ausências dos que devem ser lembrados, mas por presenças que se tornem inesquecíveis.
A série Ônix, de Reinaldo Portanova, certamente não pode ser esquecida. Portanova e Paulo Roberto foram os mais originais e impactantes. Pedro Port – como Isaac – permaneceu editando, embora com notável parcimônia, compensada pela alta qualidade. Paulo Roberto editaria Crisbal, o guerreiro, no mesmo ano, com ilustrações de Stockinger, num de nossos primeiros diálogos entre poesia e arte plástica, em que se obtinha um excelente interagir, o diálogo iniciando o fim do provincianismo e só voltaria a editar livros a partir de 1990, data do primeiro desta fase nova, intitulado Breviário da Insolência.
Em 1987, Schüler iria declarar, no já citado A Poesia no Rio Grande do Sul: “No ano em que surge O campeador e o vento (1966), aparece também Crisbal, o guerreiro, livro de estréia de Paulo Roberto do Carmo. O grito de guerra do estreante é bem mais vigoroso do que o de Nejar.” Como se vê, 1966 foi um ano e tanto, mesmo não se falando na Nossa antologia.
A própria antologia é, até hoje, apreciável.
Um caso raro, porém, era o de Isaac Starosta. Poeta pronto, um de seus poemas ali editados, Cemitério de Varsóvia, teve imediata repercussão, inclusive fora do âmbito dos apreciadores de poesia, mantendo-se poético, fato não freqüentemente simultâneo, e um poema até hoje lembrado.
O início do poema era marcante:
Cemitério de Varsóvia
alguém observa o soldado de pedra,
sal ardendo nos olhos.
São horas de alguma tarde cinzenta
Em quatro versos, o primeiro já era estritamente enxuto e cumpria a missão de musicalidade sem adereços, os dois seguintes mostravam o domínio de outra técnica, a imagística, meramente substituindo a palavra sol, que seria inadequada por óbvia – em poesia não há espaço para o que seja óbvio – e partindo para a imagem com função poética, onde o sal é lágrima, em palavra mais adequada, ainda, ao ritmo da frase. A manutenção de ritmo, mesmo em campo de imagística, em técnica habilmente superposta, denunciava a existência do poeta maior por trás do resto.
Foi preciso esperar até 1971 para surgir o primeiro livro de poemas de Isaac, Poemas ao Portador (Não consigo seguir a regra de dar a todas as demais palavras do texto em itálico iniciais minúsculas, é preciso que tenham o mesmo peso as duas palavras).
Como me tornara amigo do poeta, logo depois do lançamento, e um amigo de família, participei da escolha dos poemas, e até, sendo então um publicitário, aventurei-me a sugerir aquele título, que continuo apreciando, ao volume no qual se propunha leveza na leitura e profundidade não destituída de ironia na poesia.
Era uma estréia saudada com alegria pela cidade e pelo estado, e também pela necessária polêmica. Na forma como o conceito de poesia, sob um ponto de vista teórico, torna-se evidente, ele é falho a nível de lógica formal: poesia é o que não é prosa. É evidente que algo não pode ser definido apenas como o que definido está como sendo seu oposto, num mesmo plano conceitual. Uma evidência não é, ainda, um conceito.
E Isaac é, desde Drummond, um dos poetas que mais próximo está à linha de fronteira entre prosa e poesia, sendo um dos que correm, deliberadamente, riscos na área. Gosta de correr mantendo a perseguição ao limite, e brinca sobre ela.
Alguns dos poemas dísticos deste livro eram, também, inesquecíveis:
O amor vive
na gruta
ao acaso
(...)
Não esperes ir mais fundo
Nem com ele voar.

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