Raul Bopp e a relevância da poesia
E. San Martin - de Nova Iorque
Com apoio de colaboradores da NOVA KLAXON, um grupo de autores que se dedicam ou se interessam por poesia no Rio Grande do Sul lançou o evento PortoPoesia, onde espera-se que dezenas de poetas leiam ou apresentem seus textos ao vivo, disponham seus livros, etc... (detalhes no Portopoesia.blogspot.com). O evento vai homenagear alguns poetas gaúchos, entre os quais o clássico do modernismo Raul Bopp (1898-1984).
Uma iniciativa como essa vale, sobretudo, por tornar acessível aos interessados esta produção verbal considerada poesia por alguns e, por outros, uma verborréia narcisista e egocêntrica de pouco ou nenhum interesse lingüístico ou relevância cultural (exceto no sentido antropológico).
O encontro ou feira PortoPoesia ocorre num momento de grande anemia na cultura literária brasileira. Por mais que os otimistas digam que produção há, mas falta divulgação, investimento editorial – a realidade é que os poucos poetas vivos de valor reconhecido pela técnica e expressividade são antigos, publicados e consagrados quando ainda havia espaço para a cultura literária nos veículos de comunicação social do país.
Esta anemia intelectual na nossa era das celebridades sem sentido, por outro lado, integra um processo histórico endêmico desta “enjeitada na cultura nacional”, a poesia.
Só para registro, segue uma citação de carta enviada por Raul Bopp de Mombaça a Jorge Amado em julho de 1932, onde o autor justifica sua relutância em publicar ou divulgar seus poemas:
“...acho que a época não tá pra versos. Primeiro, pela discordância com o ambiente. Segundo, pela super produção da mercadoria. Terceiro, porque os consumidores preferem aquele lirismo bojudo do poeta Schmidt (Augusto Frederico Schmidt, o poeta da culpa cristã), ou então o verso dengue ‘recamier’ do poeta Paschoal (Paschoal Carlos Magno), o jovem especial para a alta ‘societé’”.
A carta ainda ironiza a repercussão de “Cobra Norato” (publicada em 1931 financiada por amigos). Sobre o descaso geral na acolhida ao poema hoje integrante do “cânon” modernista, Bopp diz:
“No ajuste de contas, extraindo a raiz quadrada de uns elogiozinhos de rua, o livro foi um fracasso. Talvez o recorde do ano. As livrarias venderam um exemplar. Eu só queria saber quem foi esta besta. Talvez, por engano, uma encomenda do Instituto Butantã de São Paulo”.

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