Terça-feira, Maio 29, 2007

JORGE LUIS BORGES VERSUS WALTER SCOTT



Alberto Crusius - de Porto Alegre


Raramente ouço falar nas Obras completas en colaboración, de Jorge Luis Borges, cujo primeiro volume contém seus textos escritos em parceria com Bioy Casares. O segundo, com variados colaboradores, trata de Leopoldo Lugones, do Martin Fierro, dos seres imaginários, do Budismo, e de literaturas nacionais: Uma Breve antología anglosajona, com Maria Kodama e, com outros autores, em verdade autoras, o que é o mesmo; de literatura inglesa e de literaturas germânicas medievais.
No referido segundo tomo das obras completas em colaboração, aquela de autoria partilhada com Maria Esther Vásquez, denominada Introdución a la literatura inglesa, encontro, sobre Walter Scott, a frase em que algum dos autores, ou ambos, afirmam: “Solo podemos mencionar los nombres de SHELLEY (1771-1832), y de SIR WALTER SCOTT (1771-1832)”, que inaugura la novela histórica.”
Para o leitor, é momento de perplexidade. Noutras palavras, as obras de Shelley e de Walter Scott não mereceriam sequer menção?
Ora, como todos sabem, ou como muitos admitiram, sem Scott não haveria Balzac, e sem este a literatura contemporânea.
Assim, Jorge Luis Borges almeja, além do título de venerando e venerado narrador, o de crítico capaz de apagar todo um capítulo na ordem seqüencial da história da literatura contemporânea, onipotente como todos os contemporâneos são hoje e foram em nossos vários passados, particularmente escritores, e entre eles especialmente os do gênero da crítica.
Não é sequer o mais famoso nem o mais escandaloso insurgir-se contra outro escritor marcante por parte de Borges, posto que existem suas afirmações desdenhosas sobre Dostoievsky, mais especificamente, sobre Os irmãos Karamazov..
Mas é igualmente chocante porque, sendo Scott o inaugurador da narrativa histórica, como reconhece Borges, e este um autor que usufruiu da narrativa histórica como forma de autoria, não importa com quanta originalidade o faça, há aqui o sabor suspeito do rancor mal-agradecido.
Até o reconhecimento de Borges poderia ser um equívoco. Já havia narrativa histórica, como demonstra a existência das Mémoirs de Charles de Batz Castelmore, Comte D`Artagnan, que algumas fontes denominam Memórias do Senhor D´Artagnan, Capitão Tenente da Primeira Companhia do Rei, e que seria de 1700 – setenta e um anos antes do próprio nascimento de Scott. A melhor edição completa de uma tradução do ciclo completo dos livros sobre os três mosqueteiros de autoria de Alexande Dumas, de 1920, do Porto, em Portugal, possui dedicatória de Dumas a Sandras, em reconhecimento da criação dos personagens – os quais incluem Milady e o Cardeal – e o folheto da Editora Abril, que cita o segundo dos títulos acima, menciona Auguste Maquet, um colaborador de Dumas que lhe trouxe o livro, do qual existe uma tradução brasileira de 1955, assinada por Laurita Richards, talvez completa.
Nem de longe, este humilde navegador de primeiras águas de web que sou pretende sejam tais informações de grande alcance, e nem tenta acrescer nada a respeito do que acima consta.
O tema de momento é Scott, que o folheto acima referido menciona ter sido o modelo de Dumas como modalidade de autoria, digamos, assim como o livro de Sandras sugeriu-lhe o tema.
Se por modalidade de autoria se entender qualidade estética – e não vejo outro entendimento possível – foi Scott o criador da qualidade na novela histórica, e como a qualidade é algo que se constata nas obras, e não na personalidade ou nos temas escolhidos, a afirmativa de Borges e sua colega de autoria é um estrondoso fiasco, se não pelo menos um perfeito equívoco, e não o único (1).
Que Scott era um estilista de primeira linha é indiscutível.
Basta abrir seu Rob Roy, que nosso naturalizado Otto Maria Carpeaux considerava, na única História da literatura ocidental escrita no Brasil, como sua obra-prima, e ler aqui e ali para o perceber.
Que seja possível ler aqui e ali para fazer tal constatação é o óbvio. As partes revelam o todo, mesmo quando considerado sem a leitura final, e não vou discutir o fato de que se possa constar algo num livro sem o ter lido porque isto é matéria morta, depois de Borges ter se manifestado sobre Crime e castigo declaradamente sem o ter lido, ou da genial ironia de Fausto Cunha que em algum momento escreveu uma frase que é uma obra-prima de franqueza, para acrescer algo alguma informação: “No título de uma obra que não li...”
Nem de longe pretendo que Scott seja um destes autores que deva ser lido apenas por seu estilo. Buffon, é, afinal, um nome já esquecido porque sua mais famosa tese prescreveu, ou morreu de velha, se quiserem: “O estilo é o homem.”
E olha que Sir Walter tinha, particularmente aqui, uma prosa plenamente à altura dos tempos de origem sobre os quais escreve, e do que Borges menciona na mesma introdução à literatura inglesa: a de que nas origens de cada literatura, poesia e prosa eram o mesmo.
Claro, isso pode não ser tudo.
Não quando sabemos todos nós, os pós-existencialistas, que o todo é o que importa, e que o todo está mais além do estilo, lá onde se pode saudar respeitosamente uma Carolina Maria de Jesus como uma grande dama que, tivesse sua obra Quarto de despejo sido considerada com mais atenção, não teríamos as tragédias diárias daquele Rio de Janeiro destes dias em que escrevo isto.
Aqui também há algo mais a dizer de Scott. Nascido antes da constituição americana, da revolução francesa, ao tempo da tradução de Pierre Le Tourneur da obra de Shakespeare para o francês, e falecido antes da obra de Tolstoi, porque antes de que Tolstoi tivesse atingido os cinco anos, Scott será um contemporâneo destas grandes transformações sociais e estéticas, o primeiro grande escritor a vislumbrar tais transformações como parte da matéria-prima da ficção porque transformam o enredo das vidas.
Mais ainda, em Scott há uma consciência do que seja a história, a partir do que nela tem consistência, o passado. A importância disto reside inclusive em que o futuro nos é vedado, como reconhece o próprio Borges, e como o reconhece com insistência, aliás, em suas conferências de 1967 que se tornaram obra tão tardiamente publicada, Esse Ofício do Verso (This Craft of Verse, Harvard University Press, 2000).
Assim, se o romantismo se inicia com o reconhecimento de Goethe diante do notável poeta escocês James Macpherson (1736 – 1796), e da inclusão de textos de seu fictício Ossian que todos ainda líamos com fascínio, inclusos em seu Werther – não me cobrem todo seu longo título – o mundo literário contemporâneo se inicia com Scott, e não quando ele por sua vez traduz versos de Goethe, mas quando reconhece seu país como algo insubstituível, por uma razão comum ao homem contemporâneo: Aquilo que Carpeaux reconhece em Scott como sendo sua principal virtude, um intenso sentimento humano. É algo que em nosso Drummond de Andrade será chamado o sentimento do mundo, certamente não tão próximo ao que Unamuno chamaria Del sentimento trágico de la vida, e mais próximo a algo como um sentimento mágico, e do qual emana o que na América latina chamamos realismo mágico – em Scott algo que acredito perceber como indiscutível. Os temas de Scott não são apenas intenso sentimento humano e pátria, mas a necessidade de que uma pátria seja algo que percebe o mundo como algo a que deve estar integrado.
Logo, a batalha de Borges contra Scott estava perdida desde o início, e ele poderia ter se apercebido disso, curiosamente, se fizesse um pouquinho mais do que tanto fez na vida: leitura, aquilo que nunca se faz em quantidade suficiente.
Explico-me: Borges reverenciava Stevenson. E hoje que Borges já partiu, podemos ler ao final da eficiente nota introdutória de uma edição contemporânea de Rob Roy, em 1995, da Penguin Popular Classics a seguinte frase de Stevenson: Quando penso em Rob Roy fico impaciente com todas os outros romances, eles parecem apenas sombras e impostores; eles não podem satisfazer o apetite que este despertou (“When I think of Rob Roy I am impatient with all other novels, they seem but shadows and imposters; they cannot satisfy the apetite wich this awakened.”).
Parece-me, portanto, perfeitamente cabível também o meu sentimento humano de estar escrevendo sobre Rob Roy ainda enquanto o estou lendo, naquela um tanto miúda letra da edição popular da Penguin.
Ela responde parte da pergunta famosa que até o escondido escritor que sou já teve de responder (“O que é que você está lendo?”), e que sempre me dá vontade de responder com uma série de outras perguntas: Em que gênero? Em que língua? Com ou sem interrupção – e curta ou prolongada a interrupção? Profissionalmente, por lazer, por satisfação cultural ou por mero prazer?
E, sendo em inglês, em letra miúda, e com quinhentas páginas o meu Rob Roy, ele poderá me ocupar pelo menos todo este inverno, longo como todos sempre pareceram, mas agradavelmente longo como nem tantos foram. Para os estatísticos, pelo menos significa daí para mais, e que eu aqui já coloco como sendo daí para fora – eu não me arrependeria de ler Rob Roy pelo resto da vida.
Em tempo, e fica para outra vez, também insurjo-me, é claro, contra a outra hipótese absurda levantada por Borges, sobre Shelley, a hipótese de que dele restasse também apenas o nome. Fica para a próxima.

(1). Certa vez recebi de minha prima Maria Lívia Meyer um exemplar da Antologia personal, de Borges, com a citação que o mesmo faz de Paul Valéry, no prólogo, com a palavra puissance alterada a caneta para jouissance, sem a menor cerimônia. Diante de meu escandalizado telefonema interurbano, ela respondeu simplesmente: “Borges errou”. Tudo bem. Errar é o que nos torna não-deuses, e portanto humanos. Mas há erros que gritam, mesmo no repousante silêncio do texto impresso dum livro. E diante do erro, importa é a reparação. Mesmo quando parte, diante do silêncio oficial, daqueles que são apenas aplicados leitores.