Sexta-feira, Junho 12, 2009

A diferença entre produtor cultural e despachante cultural

Onde são aplicados os milhões que a Cultura e o Esporte recebem das loterias?


As leis de incentivo a cultura, tanto nacionais como regionais (Lei Rouanet e leis de incentivo a cultura) terminaram por criar uma nova profissão que por falta de uma melhor designação passou a ser chamado de “produtor cultural”. Mas, na verdade, esses “produtores culturais” nada mais faziam/fazem do que preencher corretamente a papelada que visa encontrar a liberação legal para que o verdadeiro produtor cultural possa arrecadar recursos ou das empresas ou do sistema de financiamento estatal, sem nenhuma garantia de efetividade. A correção dos dados exigidos pela lei não significa o acesso à verba.A atividade, na maioria das cidades brasileiras onde a cultura não possui recursos e necessita de financiamento, para fazer livros, jornais, revistas, cinema, teatro,etc, virou um negócio mantido por especialistas capazes de enfrentar a papelada com as absurdas exigências legais (que não eliminam o suborno, o lobby, a transferência de recursos para as mesmas empresas que dizem financiar os projetos culturais) e pago com percentual dos recursos arrecadados, quando não antecipadamente.Com relação aos milhões que a Cultura e o Esporte recebem das loterias, por exemplo, não se tem uma prestação de contas efetiva para a sociedade da aplicação desses recursos, enquanto isso os verdadeiros produtores culturais, aqueles que produzem cultura, tem que ficar na mão desses “especialistas nos meandros burocráticos” para depois mendigar junto a empresas e instituições e assim conseguir realizar o seu trabalho de produzir cultura, quando conseguem vencer a barreiras de gerentes e marketeiros de plantão que manipulam o chamado dinheiro público.Convém começarmos a estabelecer a diferença entre produtor cultural e o mero despachante cultural, (é preciso enfatizar várias vezes isso), o produtor cultural é o que produz cultura, o outro, o despachante cultural é o indivíduo especialista que sabe como preencher a papelada para conseguir ter acesso a liberação das verbas públicas ou leis de incentivo.
Também os apressados em dar designações simples, associam o produtor de cinema, teatro, e até de televisão a essa atividade de despachante, nada mais incorreto, o produtor, aquele que produz, reúne elenco, busca recursos, etc, corre riscos sempre, enquanto o único risco do despachante cultural pode ser uma vírgula mal colocada na papelada exigida pelo sistema burocrático, sem falar que recebe antecipadamente pelo serviço. Então para caracterizar melhor esa função é importante distinguir: O produtor cultural corre risco, o despachante não tem risco.
O despachante é uma profissão digna e que existe em vários áreas sociais, em Estados excessivamente burocratizados e que sobrevivem como, despachantes aduaneiros, de papéis para trânsito, contadores -que preenchem o imposto de renda-, etc ou seja é aquele sujeito que conhece os meandros burocráticos e preenche a papelada necessária para que essa ou aquela atividade possa ser realizada dentro da lei.O despachante cultural definitivamente não produz cultura, quem produz cultura é quem faz cultura.

Sábado, Junho 28, 2008

Exumando pó ou o filho do barbeiro de Fernando Pessoa

Marco Celso Huffell Viola


A mídia e um círculo de parasitas que navega entre as academias adora comemorar, festejar a obra de autores, sejam quais forem, e os centenários,então, são o motivo ideal, cem anos disso ou daquilo.No ano seguinte a obra é esquecida e, na mesma velocidade, um novo autor “centenário” é rememorado. E, todos esses comemoradores, mordem e ganham alguma coisa com isso, ou seus quinze minutos de fama ou dinheiro mesmo.Agora chegou a vez dos 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa. Por que 120 anos?Não entendo a razão de não comemoraram os 119 anos de nascimento ou 121, ou 119 e um quarto... Um recente documentário da Globonews sobre os 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa só mostrou o quão foi pequena ou miúda (como dizem os portugueses) a vida de um dos maiores poetas da língua portuguesa e menor ainda a imaginação do repórter, que a determinado momento chega aproximar o poeta português a Leonardo da Vinci em função de duas invenções dele, a carta-envelope e a máquina de escrever com tipos móveis,invenções essas das quais não existe o menor registro.Por mais que o jornalista buscasse alguma coisa, revirando velhas anotações, fotos, parentes, mais distante ficava da obra do poeta. E, surge a clássica entrevista com um “estudioso,especialista” junto à estátua de bronze que paralisa em metal uma também fase miúda e magra da vida do poeta como se aquela fosse a verdadeira imagem dele.Uma caricatura em metal como tantas outras que povoam as praças do mundo de fantasmas inúteis que só servem para abrigo das pombas ou para os ladrões de bronze.Dos especialistas,parentes, sobre a vida de Fernando Pessoa, não havia nada mais a declarar sobre ele que já não se soubesse.Em determinado ponto do documentário o jornalista resolveu entrevistar o filho do barbeiro do Fernando Pessoa...Incrível.Há no documentário, também um filme da ex-namorada, do poeta. Pra quê?Vê-se a distância uma senhora com rosto comum, pateticamente, já morta, abanando de uma janela.Nonsense puro.
O poeta não deixou a guarda de sua alma em fotos, parentes desimportantes ou mesmo no esquema de elétricos feito por ele para encontrar com a namorada.Aquilo tudo está velho desfocado,amarelo. O que ele deixou de importante foi a sua obra, não sua vida.”Viver não é preciso.”E ele viveu pouco, quase nada, o suficiente apenas para escrever.Homenagens nunca as teve,apenas um livro publicado durante sua existência física.Mas isso não interessa esses exumadores de pó como se apenas a realidade vivida pelo poeta possa revelar ou dizer sobre sua identidade,impossível para alguém que em toda a sua obra negou a sua.A vida prática do poeta português, a não ser seu encontro com Alesiter Crowlewy e a correção de seu horóscopo, nada teve mais rumoroso,importante, nada absolutamente nada estranho ou digno de nota, ao contrário da obra. A sua vida pode ser comparada aos brasileiros Drumond e Manoel Bandeira,uma vida comum, banal,cuja vida interior é muitas e várias vezes mais rica e habitada que a vida exterior.
A obra do poeta é sua vida interior,o exterior é apenas um rasgo, uma fresta aonde o verdadeiro poeta espia.Há, as exceções, quando a vida do poeta mistura com sua arte,então, existe algum significado associá-los,mesmo assim não completamente, poesia não é arte da realidade. Recentemente ouvi, também, um desses analistas da obra alheia, ansioso por declarar algo importante,sobre Mario Quintana.Contemporâneo de Mário (eram colegas de redação) ele fala sobre o poeta:“aprendi mais com o silêncio de Mário do com que com suas palavras.” Traduzindo: o poeta não falava com ele. Não dava a mínima importância a esse analista futuro de sua obra.
Não é ótimo?
A necessidade de aduzir, enxertar-se na pessoa da poeta é tanta que vale tudo, mesmo que isso seja completamente insignificante e desnecessário.Mas o que afirmo aqui pode ser associado a outros gêneros de arte, todos têm os seus “especialistas, não criativos” sem luz própria que precisam para sobreviver, se aquecer como mariposas na luz alheia.
Aliás, o filho do barbeiro de Fernando Pessoa perdeu a oportunidade de recolher algumas fiapos do cabelo do poeta ou de sua barba e guardar para posteridade se soubesse, na ocasião, de quem se tratava.E se fosse um filho de barbeiro com imaginação poderia dizer até que Fernando Pessoa pagava com versos ao corte de cabelo do fígaro seu pai.Mas não, tanto ele como o repórter eram, um pouco sem imaginação, e ficamos nós todos pensando o que poderia fazer um poeta dentro de uma barbearia, imagino que ele também poderia ter escrito o poema A Barbearia, auxiliando, e muito, as entrevistas futuras do filho do barbeiro...Ficou-me a impressão (ou me ficou a impressão?) que o poeta não gostava desse barbeiro e preferia o dono da tabacaria, resta saber se existe algum sobrevivente dessa loja onde ele comprava seus fumos, e se ele aparecer, certamente, vai colaborar apenas com a nossa compreensão da capacidade pulmonar do poeta ou vai esclarecer e espalhar mais fumaça sobre a obra de Alberto Caieiro ou Ricardo Reis?

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Na soleira da porta


Manoel Hygino dos Santos *
Emanuel Medeiros Vieira acaba de lançar, pela Thesaurus, “Cerrado Desterro”, primeiro volume de suas memórias, com orelhas de Victor Alegria. A primeira consideração é de que me parece muito cedo para ingressar nesse gênero.Emanuel nasceu em Florianópolis no ano em que Vargas desceu as escadas do Catete, em 1945, sem descer à sepultura, como na segunda vez, em 1954. O período de vida do autor é relativamente curto para cogitar de reunir lembranças.Mas o escritor de Santa Catarina achou que a hora era chegada, e ele mais do que ninguém sabe de si e de seu cronograma e perspectivas. O primeiro volume soma quase quatrocentas páginas, e há mais três temas nos trilhos.A primeira idéia é de memórias serem elaboradas ou organizadas quando a marcha etária ultrapassa a casa dos 70 anos. Assim fez Pedro Nava, e acertou plenamente. O seu legado para as letras e a história brasileira é fantástico.Mas Emanuel Medeiros Vieira encontrou motivos para deslanchar antes o projeto. Com o primeiro volume se constata que ele tem razão. Viveu momentos difíceis, duros, até horripilantes da crônica brasileira no século passado.Esteve junto aos acontecimentos, sofreu-os, teria o que revelar.Andou por estes Brasis que não são tanto mais de meu Deus, para passar aos numerosos demônios que o habitam. Mudou de acampamento com diploma da Faculdade de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul e sentou praça em Brasília, o centro do poder.Escreveu muito, vários livros, alguns com títulos cinematográficos. Escreve bem, conhece-se e reconhe-se. O primeiro volume de suas memórias traz uma amostra do que será a obra, como um todo. Reúne lembranças, depoimentos em jornais, pensamentos alheios que o impressionaram, fragmentos, que dão testemunho de uma época.A “revolução” de 1964, com tantos erros cometidos, com crimes e torturas, o pegou em suas malhas. Esteve preso, por motivos em que incorreriam e incorreram homens de bem, jornalistas, escritores, artistas, intelectuais.De uma hora para outra, descobriu que álcool não faz bem. Todo mundo sabe que assim é, mas somente a experiência pessoal, traumática às vezes, convence. Parou de vez. Nem por isso deixou de ter padecimentos. No início de seu livro, afirma:“E a Morte, encostada na soleira da porta, quis dançar comigo um tango argentino. Fingi, disfarcei. Cínica, ela abanou. Fechei os olhos, cama de hospital, botei o cobertor na cabeça. Fui baixando, olhei, ela ainda me contemplava, o sorriso desaparecera, olhar mais grave - alguma compaixão?”À indesejada proposta do tango, disse: “Sou muito desajeitado, não sei dançar, esbarro em todo mundo. Há parceiros melhores”. Mas ela não abria mão de sua preferência. Uma grave enfermidade cardiológica quase o tirou do meio do salão da vida.Encontrou médicos excelentes, enfermagem de alto nível, carinho e apoio da família. A cirurgia foi plena de êxito, recuperou-se. Agora, verifico que as memórias de Emanuel Medeiros Vieira eram inadiáveis, devem e precisam ser lidas.
* Manoel Hygino dos Santos é escritor e crítico literário mineiro. Escreve no jornal "Hoje em Dia", de Belo Horizonte.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Lendo Emily Dickinson

Poema de Emanuel Medeiros Vieira
Para Célia de Sousa

Poderia ser 1830,
quando nasceste,
mas é 2008,
chuvoso domingo de março,
não publicaste livro em vida (o que menos importa).
“Ela chegou afinal, mais ágil porém a Morte
Havia ocupado a casa:
A pálida mobília já disposta,
Junto com sua palidez metálica” (...).
Só poeira e esquecimento,
nada dura,
Felicidade efêmera – ler teus poemas, Emily.

O domingo fluindo,
tempo: linha reta de eterna agonia.
Não existe presente, só passado.
Nem futuro.
A namorada de 1968 jaz num cemitério de aldeia.
“Empoeirado se mostra o mundo
Ao nos deitarmos para morrer”.
Sim: “Tão longe da compaixão quanto a queixa
Tão frio às palavras quanto a pedra.
Tão insensível à Revelação
Como se meu ofício fosse nada.”
O empenho diário é inútil?
(Para os outros.)
Ah, cidade que me atirou seu presságio
adverso.
Terá termo a espera?
Deve-se matar a morte que sobre nós se abate.
(Peço desculpas aos poetas que pilhei:
confluências.)
Aqui jaz a inocência:
a morte não existe, nós é que morremos.

(Brasília, março de 2008)

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

SOBRE CONTOS DE EMANUEL MEDEIROS VIEIRA:

Hamilton Alves*


Emanuel Medeiros Vieira com o conto “Nunca Mais Voltaremos para Casa” (publicado no Jornal da ANE, edição de agosto de 2007) revela-se como um dos grandes nomes da literatura catarinense da atualidade.
Aliás, temos um punhado de bons escritores pululando por aí. Quando não em jornais, aparecem em revistas ou folhetins que circulam gratuitamente, como é o caso do “Livro na Rua”, editado em Brasília pela Thesaurus Editora, que vem a publicar um dos melhores contos produzidos por Emanuel Medeiros Vieira, que já merecera publicação nas antologias “Esse Amor Catarina”, organizada por Salim Miguel, Silveira de Souza e Flávio José Cardozo (reunindo uma plêiade de bons escritores do Estado de Santa Catarina), e na “Antologia do Conto Brasiliense”, organizada por Ronaldo Cagiano.
O problema é que tais escritores atuam fora do eixo Rio-São Paulo, que constitui (e sempre constituiu) uma “panela” na qual poucos conseguem entrar.
Até hoje, desconhece-se o processo pelo qual se obtém acesso a ela.
Paulo Coelho e escritores do padrão dele o conseguiram (até entrar na Academia Brasileira de Letras foi possível, sabe-se lá como). A política das editoras (a maioria delas) é puramente de caráter comercial.
Dane-se o valor do livro – isso fica em segundo plano.
É sabido que Paulo é um escritor de fancaria. Uma editora, não faz muito, comprou por quinhentos mil reais o seu passe. Ou seja: ter exclusividade na edição de seus livros. Qual a resposta para esse enigma (não há, na verdade, bem vistas as coisas). O cara vende. Fatura alto. E seu nome, como se sabe, extrapolou nossas fronteiras. Faz sucesso a nível mundial.
Um escritor (só para citar um de real valor) como Emanuel Medeiros Vieira, que é superior ao Coelho mil vezes, não tem chance de aparecer ou ser editado por uma dessas casas editoriais de alta circulação ou aceitação na praça.. Por que? O editor não tem segredo. Já ouvi a mesma cantilena.
– O seu livro não vende.
Lembro-me que isso me ocorreu quando mandei uma novela para consideração de uma editora de projeção nacional. Disse ao editor: “Se vocês publicaram o livro de François Truffaut (tratava-se de “O Homem que Amava as Mulheres”, uma história marota de um sujeito obcecado por mulheres, que rendeu um bom filme, faça-se justiça a Truffaut), por que não editam minha novela que tem, modéstia à parte, mais peso literário?”
A resposta foi lacônica (igual à precedente):
– Truffaut vende.
Emanuel tem um conto recentemente publicado pelo Jornal da ANE.
O conto tem o título de “Nunca Mais Voltaremos para Casa.”
É um conto muito bem estruturado, bem escrito, bem bolado, que nos pega desde a primeira frase pelo rabo da curiosidade. Já em “Este Amor Catarina”, Emanuel publicou um conto igualmente magistral, “Amor aos Vinte Anos”, sobre o qual já escrevi uma resenha, publicada no jornal “A Notícia”, de Santa Catarina, em junho de 1996.
Nesses dois trabalhos excelentes, Emanuel revela-se um escritor detentor de um estilo, de uma maneira própria de expressão, o que não é fácil nem muito comum encontrar-se.
No conto divulgado no Jornal da ANE, trata-se de um de uma história de dois amantes em conflito. Ela cobra dele o tipo de escritura que vem produzindo. A primeira frase o desencadeia:
– És um escritor do passado, diz a ex-namorada.
O diálogo cresce a cada lance até o desenlace, quando ela o deixa sozinho e ele paga a despesa de ambos num bar, em que “o frango está frito e cru. Ela reclama que a coca-cola está quente.”
“Ela foi embora, sem despedida, sem outras palavras duras. Enquanto se afastava, eu lembrei que já havíamos rido, brincado, feito acampamentos, viagens, planos. Amor.”
Caindo em si mesmo, o personagem reage a tais lembranças:
“Pára com a autopiedade”, pede uma irritada voz interior.
O desfecho do conto segue esse mesmo clima.
Nos dois contos (“Amor aos Vinte Anos” e “Nunca Mais Voltaremos para Casa”) nota-se que a linha de ação se assemelha muito. Emanuel se utiliza da linguagem comum, dos lugares-comuns (no sentido de que se vale do que normalmente acontece no dia a dia das pessoas comuns ou dos dramas cotidianos).
É o puro retrato da vida, muito prezado por escritores como Nelson Rodrigues. Só que Emanuel o utiliza com mais riqueza de detalhes ou com mais senso psicológico.
“Fui para casa, fiquei olhando pela janela, não chovia, ouvindo no mais alto volume, se isso fosse possível em se tratando de Wagner, ‘Tannhãuser’ (e um vizinho berrou: ‘baixa essa merda, baixa essa merda’). Baixei para não ter incômodos com o zelador, com o síndico.”
Qual o escritor que desceria a tais detalhes triviais?
Já em “Amor aos Vinte Anos” é o mesmo interesse pelas coisas banais que lhe fazem a fortuna literária. Dir-se-á que Emanuel os preza e os prefere à sofisticação ou a ficar lustrando em demasia. Hemingway (diz-se) não gostava de filosofices. Ia direto ao assunto. Emanuel vai ao rebotalho: que se dane a preciosidade. Ou que é tido como tal.
Como tantos outros de nossos escritores (acho que ele não está nem aí), se tentar uma dessas grandes editoras, que publicam Paulo Coelho ou Sarney e outros que tais, lhe baterão com a porta no nariz.
– Você não vende – é o mínimo que ouvirá.
Em grandes jornais (na grande imprensa ou revistas de grande circulação), o fenômeno é idêntico: portas fechadas.
Mas enquanto essa discriminação, para não lhe da outro nome, acontece, nossos escritores vão sendo lidos aqui e ali, gerando a pergunta inescapável: por que o Paulo Coelho, por que o Sarney? Que preferência imbecil é essa?
“Nunca Mais Voltaremos para Casa” é desses contos que se voltam sempre a ler porque nele o que aflora destacadamente é a vida tal qual é. Sem nenhuma frescura.

*Hamilton Alves é jornalista e escritor

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

VIETNAM (Sempre)

Emanuel Medeiros Veira- de Brasília


Trinta e dois anos depois do final da guerra e da maior derrota militar dos EUA, os efeitos da dioxina usada no desfolhante agente laranja continuam a afetar regiões que compreendem áreas do Vietnam, do Laos e do Camboja. Os resíduos se entranharam na terra e nas sementes das plantas, e pessoas que as consumiram e consomem, transmitiram e transmitem seus efeitos aos descendentes. Em matéria publicada no Jornal do Brasil , Mauro Santayana escreve: "Com imagens de crianças sem olhos, sem braços, sem ouvidos, com a espinha dorsal dividida em duas, os membros atrofiados, o crânio piramidal, e relatos sobre recém-nascidos com os órgãos genitais na face, volta aos jornais europeus a denúncia conta o mais nefando dos terrorismos. São milhares de seres humanos e, enquanto viverem e continuarem a nascer, representam o libelo mais ácido contra os piores terroristas do século 20: os senhores estadunidenses da guerra." Trinta e dois anos depois da derrota dos invasores na batalha final de Saigon, continuam os tenebrosos efeitos do agente laranja usados pelos EUA. Uma matéria de José Reinoso, enviado do prestigiado jornal El Pais, de Madrid, traz o depoimento "seco e contundente", de médicos do país e de algumas dessas crianças. A história do desfolhante laranja começou na Segunda Guerra Mundial, quando os encarregados das armas químicas sugeriram seu emprego maciço sobre os arrozais japoneses "Ao saber do projeto que mataria os inimigos de fome, Roosevelt - vítima de paralisia infantil - vetou-o, mas Truman, aos substitui-lo, mandou jogar a bomba atômica sobre Hiroshima. Estimulados pelo Pentágono, as maiores empresas químicas do país - tendo à frente a Monsanto e a Dow Chemical - passaram a pesquisar s efeitos do agente laranja contra os seres vivos, não só os da deformação genética, como também os da indução ao câncer. Em 1960 passaram a produzir para a guerra. Em novembro de 1961, o glorificado presidente Kennedy autorizou o uso do produto no Vietnã", relata Santayana. Naquele país, hoje, além das crianças deformadas, a incidência de câncer no útero é 30 vezes maior do que no resto da Ásia. O Protocolo de 1925 que integra os seculares acordos de Genebra sobre a conduta na guerra, proíbe rigorosamente o uso de armas químicas nas batalhas. A decisão foi tomada depois do emprego de gases mortais na Primeira Guerra mundial. "Mas 29 anos depois, os nazistas, para o extermínio 'limpo' do judeus e outras etnias (incluída a 'raça' dos comunistas) encomendaram à IG-Barben a produção do gás Zyklon B, usado em Auschwtiz e em outros campos." Mauro Santayana conclui (depois de acusar os EUA de serem os herdeiros da arrogância nazista): "A IG-Farben - que naceu para produzir anilinas - tem suas sucessoras na Monsanto e na Dow Chemical, orientadas pela mentalidade de que a morte pode ser o resultado de um processo técnico lucrativo, seja na produção da dioxina, ou transgênicos, obtidos mediante essa necrotecnologia que condena as sementes à morte, depois de duas ou três colheitas, a fim de que mantenham o monopólio de sua produção. Não lhes importa a possibilidade de que os transgênicos venham a matar os consumidores ou a condenar as almas das crianças a habitar corpos deformados nas próximas gerações. O que importa é o preço de suas ações, os dividendos aos acionistas e elevada remuneração de seus quadros executivos."

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

CARLOS SALDANHA LEGENDRE E SEU CANTO INVENTARIANTE



Alberto Crusius - de Porto Alegre


O tempo é a medida das coisas? Responder a si mesmo é o teste supremo. Então, vamos lá: É evidente que há para cada tempo o seu devido possível.
Por exemplo, ainda não li o novo livro de poemas de Jorge Adelar Finatto, e também não li seu primeiro livro, por esgotado. Só os poemas publicados na prestigiada Caderno de Literatura, da Associação de Juízes do Rio Grande do Sul, excelentes, e posso, portanto, me questionar sobre qual o meu livro favorito de poesia sem bater de frente com um candidato que certamente empataria com qualquer outro, e que de momento não é elegível porque não estou, como vêem, com a leitura de seus livros de poemas completa.
“Livro favorito” é uma expressão exata, porque fora dela tudo é bruma: “O melhor”, nestes tempos de pan, e imagens de atletismo contínuo, é algo tentador, mas rejeitável por definição. Num dia se ouve o locutor de uma rede nacional de televisão dizendo ser o esporte um modelo de comportamento para a sociedade, e, no dia seguinte, vemos dois jovens vultos de quimono e capacetes protetores trocando pontapés até que um dos dois cai, em contorções, atingido pelo pé do outro por baixo da proteção do tórax.
Ora, até empresas já substituíram competição por motivação, mas...
...mas eu ia apontar meu livro favorito de poesia.
A cisma é algo que não se pode interromper, e cismamos também sobre o que nos propomos como interdito: Como assim, o melhor? Nunca aceitaríamos participar de um conclave poético em tal sentido, muito menos como árbitro, mas...na impossibilidade do julgar sempre com certeza, é forçoso admitir certo comportamento arbitrante, é o que esperam todos de todos, nos afetos, nas profissões, nos desafetos, nos afagos, nos desafagos.
Critérios existem: não eligirás como melhor algum de que participaste na confecção com opiniões, nem algum que seja de autor sobre o qual, de alguma forma, opinaste na hora longa e difícil da confecção, nem de parentes, nem de geração seguinte à tua, da qual não estás obrigado a vislumbrar futuros possíveis. Nem de poeta que sabes trabalhando em obra que terá ressonância indiscutível e sobrepujará seus livros atuais...
Bem, já está um pouco diminuído teu quadro de escolhas.
Mas em termos de escolha pessoal, o favoritismo, mesmo estético, é matéria personalíssima, mesmo quando amplamente amparada em estética rigorosa. Como em tudo que é pessoal, há sempre o episódio, não?
Sim, há o episódio, a coisa do tipo enredo, estória, os fatos ou algum fato, da vida, do quotidiano (não use jamais a expressão vida quotidiana: não existe vida que não se dê no quotidiano), e o eco interno, paradoxalmente, o único eco realmente objetivo em se tratando de construção da cultura poética.
E se o episódio foi significativo para ti, porque guardá-lo exclusivamente como lembrança tua? Sendo humano, é de supor que tua descoberta pessoal possa ser comum a todos na tua condição. O resto é, afinal, complementar. Pronto. Venceste, com o raciocínio, a trava do viver subjetivo.
O episódio, não podia ter, como ambiente, nada mais trivial, mas muito agradável. Um coquetel de mais um lançamento de algum número da Caderno de literatura, na qual tiveste o prazer de ver algum texto teu publicado e de reencontrar a figura serena do poeta Carlos Saldanha Legendre, e o comentar, da tua parte, que alguns versos seus, estão certamente entre os teus favoritos, entre os que nunca esqueceste, e provar isto recitando, para o próprio autor, numa hibernal noite sulina, com nostalgia evidente de calor e verão:


Em mil
milhas
do mar

o azul
verte
em bilhas.

(...)

A admiração, afinal, decorre, freqüentemente, do obtido por outro em seara em que nossa tentativa nunca foi, por vezes, sequer esboçada.
Legendre, atento e satisfeito, para meu espanto, corrige as estrofes Eu as recitava para mim mesmo desde 1971, eu as procurava desde muito longe na minha infância em praias, quando ainda não existiam, olhando, de Arroio do Sal a Xangri-lá, aquelas mil, milhares, milhas, de espumas em franjas, tão arrumadas em pequenos leques brancos que nunca eu conseguia cometer poema mimetizando-as em mesma concisão do espaço visual a cada uma adstrito, e a relação deste espaço com o seu maior, o mar. Eu não posso ter me equivocado, aquele é um dos meus momentos de leitura e enlevo favorito de poesia. Mas ele, o autor, corrige com aquela sua serenidade sábia e mansa desde a voz:

Em mil
milhas
do mar

no azul
vertem
bilhas.

(...)

Aquilo parece impossível. Estávamos em pleno ano 2000, os algarismos do sonho de um milênio, passei os últimos vinte e nove anos recitando aquelas palavras, retornando a elas quando as esqueço, reencontrando nelas toda a pureza satisfatória da leitura original, eu não as esqueceria, constrangido, apelo para a franqueza absoluta, “olha, não quero te iludir, eu ainda ontem reli os versos, palavra por palavra, pausa por pausa.”
O poeta sorri, pede licença, vai até seu carro, no estacionamento, e volta portando exemplar com o brilho do que é novo, de uma reedição de seu Inventário do canto que me autografa, uma edição maior e ainda mais bela do que a original, de 1971.
A leitura desta versão foi fascinante. Desapareceram poemas, compareceram novos, foram reescritos outros, foi acrescido um nome a mais nas dedicatórias, Pound foi substituído por Murilo Mendes e Mário Quintana como epígrafes. Mas conferi e fiquei tranqüilo: Lá está A TORRE SEM DEGRAUS, DE DRUMMOND, no mesmo título, até no mesmo negrito, e que reflete, desde o título, o mesmo uso do “r” de Carlos Drummond de Andrade. As duas ou três alterações mínimas que tem, uma inversão de palavras na mesma parte em que uma citação passa a constar entre aspas, e mais próxima ao parágrafo anterior, um a letra “n” e um “a”, em acréscimo de sonoridade quase imperceptivelmente aperfeiçoada à palavras de outro dos vinte parágrafos, e o acréscimo de poemas depois do final do mesmo: tudo apenas confirmatório. E um mundo para reler, agora acrescido dos elogios de Cassiano Ricardo, Carlos Nejar, Ledo Ivo, e a suprema glória de uma carta a Legendre por parte de Antônio Houaiss “Se só venho agora agradecer o seu Inventário do Canto é porque, no meio tempo, o li, reli, transli várias vezes. Isso bastaria para significar-lhe o quanto ele foi, é e será assim."
Sim, escritores redigem aquilo que de repente percebemos ser exatamente o que diríamos numa determinada circunstância, e Antônio Houaiss é, evidentemente, um escritor – e um escritor como poucos.
De quebra, a citação final de um trecho de Robert Frost sobre poesia, por sua vez afirmando algo que nunca aceitaste reconhecer publicamente, mas que sabes verdadeiro:
“É absurdo pensar que o único meio de saber se um poema é imortal seja aguardar que ele perdure. Quem sabe ler um bom poema deve poder dizer, no momento em que é por ele atingido, se recebeu ou não um golpe de que nunca mais se curará (...)”.
O mesmo ocorre com os livros. Existe um tipo de gosto poético extremamente cultivado, que não teme o experimentalismo, que só a leitura dos livros de João Cabral de Melo, Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima , Walmir Ayala, Heitor Saldanha, e, também, de Dimitri Sigalinos, pode satisfazer.
Mas neste pequeno e seleto caudal de cabeceiras, o meu livro favorito é Inventário do canto, de Carlos Saldanha Legendre. Em qualquer das duas edições. Aquela de 1971 que documenta uma busca típica de uma época, e a de 2000 que nos ensina ser a perfeição algo atingível. Reescrever por quase três décadas um livro de poemas é uma das mais dignas tarefas a que um homem pode – e deve – se dedicar. Um grande poeta é, afinal, um homem que se dedica à obra de poesia, esta, aqui, agora, de forma absoluta, definitiva: para todo o sempre. “...a perenidade, em poesia (...) não necessita de ser provada pelo tempo: aprende-se instantaneamente (...), prossegue o texto de Robert Frost.
E realmente estamos diante de um dos mais belos inventários já feitos dos limites a que se possa chegar em poesia praticada com técnica exímia, concisão extrema e domínio absoluto do uso da palavra como sonoridade e imagem, que vem desde seu primeiro livro de poesia, Canto ao mar de Piriápolis (1962), e que, será pelo menos mantido, ou quem sabe superado, o que será quase incrível, em sua Elegia à Lesma, pelo que dele já lemos ou ouvimos o poeta declamar. A mesma qualidade nos embevece em seus excelentes poemas por ora esparsos, e com a qual a revista de literatura da Ajuris, por exemplo, tem brindado a grande quantidade dos leitores aos quais é distribuída gratuitamente, e do que testemunham cartas por vezes tocantes chegadas de remotas localidades, escritas por desprivilegiados professores de remotos sertões. É mais um ato de tocante humanismo do poder por excelência onde o homem usa a palavra pela construção de um mundo melhor para sua espécie através do uso jurídico do instrumento maior da humanidade: a sentença, essa manifestação de linguagem comum ao fazer literatura e ao fazer justiça, o que de alguma maneira que apenas vislumbramos é a mesma matéria.

Alberto Crusius, publicado em vários veículos de literatura do país, esclarece que não faz parte do poder judiciário, não sendo juiz nem advogado. Acha difícil, mas às vezes necessário, falar de si mesmo na terceira pessoa...
22 de julho de 2007.