Alberto Crusius - de Porto Alegre
O tempo é a medida das coisas? Responder a si mesmo é o teste supremo. Então, vamos lá: É evidente que há para cada tempo o seu devido possível.
Por exemplo, ainda não li o novo livro de poemas de Jorge Adelar Finatto, e também não li seu primeiro livro, por esgotado. Só os poemas publicados na prestigiada Caderno de Literatura, da Associação de Juízes do Rio Grande do Sul, excelentes, e posso, portanto, me questionar sobre qual o meu livro favorito de poesia sem bater de frente com um candidato que certamente empataria com qualquer outro, e que de momento não é elegível porque não estou, como vêem, com a leitura de seus livros de poemas completa.
“Livro favorito” é uma expressão exata, porque fora dela tudo é bruma: “O melhor”, nestes tempos de pan, e imagens de atletismo contínuo, é algo tentador, mas rejeitável por definição. Num dia se ouve o locutor de uma rede nacional de televisão dizendo ser o esporte um modelo de comportamento para a sociedade, e, no dia seguinte, vemos dois jovens vultos de quimono e capacetes protetores trocando pontapés até que um dos dois cai, em contorções, atingido pelo pé do outro por baixo da proteção do tórax.
Ora, até empresas já substituíram competição por motivação, mas...
...mas eu ia apontar meu livro favorito de poesia.
A cisma é algo que não se pode interromper, e cismamos também sobre o que nos propomos como interdito: Como assim, o melhor? Nunca aceitaríamos participar de um conclave poético em tal sentido, muito menos como árbitro, mas...na impossibilidade do julgar sempre com certeza, é forçoso admitir certo comportamento arbitrante, é o que esperam todos de todos, nos afetos, nas profissões, nos desafetos, nos afagos, nos desafagos.
Critérios existem: não eligirás como melhor algum de que participaste na confecção com opiniões, nem algum que seja de autor sobre o qual, de alguma forma, opinaste na hora longa e difícil da confecção, nem de parentes, nem de geração seguinte à tua, da qual não estás obrigado a vislumbrar futuros possíveis. Nem de poeta que sabes trabalhando em obra que terá ressonância indiscutível e sobrepujará seus livros atuais...
Bem, já está um pouco diminuído teu quadro de escolhas.
Mas em termos de escolha pessoal, o favoritismo, mesmo estético, é matéria personalíssima, mesmo quando amplamente amparada em estética rigorosa. Como em tudo que é pessoal, há sempre o episódio, não?
Sim, há o episódio, a coisa do tipo enredo, estória, os fatos ou algum fato, da vida, do quotidiano (não use jamais a expressão vida quotidiana: não existe vida que não se dê no quotidiano), e o eco interno, paradoxalmente, o único eco realmente objetivo em se tratando de construção da cultura poética.
E se o episódio foi significativo para ti, porque guardá-lo exclusivamente como lembrança tua? Sendo humano, é de supor que tua descoberta pessoal possa ser comum a todos na tua condição. O resto é, afinal, complementar. Pronto. Venceste, com o raciocínio, a trava do viver subjetivo.
O episódio, não podia ter, como ambiente, nada mais trivial, mas muito agradável. Um coquetel de mais um lançamento de algum número da Caderno de literatura, na qual tiveste o prazer de ver algum texto teu publicado e de reencontrar a figura serena do poeta Carlos Saldanha Legendre, e o comentar, da tua parte, que alguns versos seus, estão certamente entre os teus favoritos, entre os que nunca esqueceste, e provar isto recitando, para o próprio autor, numa hibernal noite sulina, com nostalgia evidente de calor e verão:
Em mil
milhas
do mar
o azul
verte
em bilhas.
(...)
A admiração, afinal, decorre, freqüentemente, do obtido por outro em seara em que nossa tentativa nunca foi, por vezes, sequer esboçada.
Legendre, atento e satisfeito, para meu espanto, corrige as estrofes Eu as recitava para mim mesmo desde 1971, eu as procurava desde muito longe na minha infância em praias, quando ainda não existiam, olhando, de Arroio do Sal a Xangri-lá, aquelas mil, milhares, milhas, de espumas em franjas, tão arrumadas em pequenos leques brancos que nunca eu conseguia cometer poema mimetizando-as em mesma concisão do espaço visual a cada uma adstrito, e a relação deste espaço com o seu maior, o mar. Eu não posso ter me equivocado, aquele é um dos meus momentos de leitura e enlevo favorito de poesia. Mas ele, o autor, corrige com aquela sua serenidade sábia e mansa desde a voz:
Em mil
milhas
do mar
no azul
vertem
bilhas.
(...)
Aquilo parece impossível. Estávamos em pleno ano 2000, os algarismos do sonho de um milênio, passei os últimos vinte e nove anos recitando aquelas palavras, retornando a elas quando as esqueço, reencontrando nelas toda a pureza satisfatória da leitura original, eu não as esqueceria, constrangido, apelo para a franqueza absoluta, “olha, não quero te iludir, eu ainda ontem reli os versos, palavra por palavra, pausa por pausa.”
O poeta sorri, pede licença, vai até seu carro, no estacionamento, e volta portando exemplar com o brilho do que é novo, de uma reedição de seu Inventário do canto que me autografa, uma edição maior e ainda mais bela do que a original, de 1971.
A leitura desta versão foi fascinante. Desapareceram poemas, compareceram novos, foram reescritos outros, foi acrescido um nome a mais nas dedicatórias, Pound foi substituído por Murilo Mendes e Mário Quintana como epígrafes. Mas conferi e fiquei tranqüilo: Lá está A TORRE SEM DEGRAUS, DE DRUMMOND, no mesmo título, até no mesmo negrito, e que reflete, desde o título, o mesmo uso do “r” de Carlos Drummond de Andrade. As duas ou três alterações mínimas que tem, uma inversão de palavras na mesma parte em que uma citação passa a constar entre aspas, e mais próxima ao parágrafo anterior, um a letra “n” e um “a”, em acréscimo de sonoridade quase imperceptivelmente aperfeiçoada à palavras de outro dos vinte parágrafos, e o acréscimo de poemas depois do final do mesmo: tudo apenas confirmatório. E um mundo para reler, agora acrescido dos elogios de Cassiano Ricardo, Carlos Nejar, Ledo Ivo, e a suprema glória de uma carta a Legendre por parte de Antônio Houaiss “Se só venho agora agradecer o seu Inventário do Canto é porque, no meio tempo, o li, reli, transli várias vezes. Isso bastaria para significar-lhe o quanto ele foi, é e será assim."
Sim, escritores redigem aquilo que de repente percebemos ser exatamente o que diríamos numa determinada circunstância, e Antônio Houaiss é, evidentemente, um escritor – e um escritor como poucos.
De quebra, a citação final de um trecho de Robert Frost sobre poesia, por sua vez afirmando algo que nunca aceitaste reconhecer publicamente, mas que sabes verdadeiro:
“É absurdo pensar que o único meio de saber se um poema é imortal seja aguardar que ele perdure. Quem sabe ler um bom poema deve poder dizer, no momento em que é por ele atingido, se recebeu ou não um golpe de que nunca mais se curará (...)”.
O mesmo ocorre com os livros. Existe um tipo de gosto poético extremamente cultivado, que não teme o experimentalismo, que só a leitura dos livros de João Cabral de Melo, Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima , Walmir Ayala, Heitor Saldanha, e, também, de Dimitri Sigalinos, pode satisfazer.
Mas neste pequeno e seleto caudal de cabeceiras, o meu livro favorito é Inventário do canto, de Carlos Saldanha Legendre. Em qualquer das duas edições. Aquela de 1971 que documenta uma busca típica de uma época, e a de 2000 que nos ensina ser a perfeição algo atingível. Reescrever por quase três décadas um livro de poemas é uma das mais dignas tarefas a que um homem pode – e deve – se dedicar. Um grande poeta é, afinal, um homem que se dedica à obra de poesia, esta, aqui, agora, de forma absoluta, definitiva: para todo o sempre. “...a perenidade, em poesia (...) não necessita de ser provada pelo tempo: aprende-se instantaneamente (...), prossegue o texto de Robert Frost.
E realmente estamos diante de um dos mais belos inventários já feitos dos limites a que se possa chegar em poesia praticada com técnica exímia, concisão extrema e domínio absoluto do uso da palavra como sonoridade e imagem, que vem desde seu primeiro livro de poesia, Canto ao mar de Piriápolis (1962), e que, será pelo menos mantido, ou quem sabe superado, o que será quase incrível, em sua Elegia à Lesma, pelo que dele já lemos ou ouvimos o poeta declamar. A mesma qualidade nos embevece em seus excelentes poemas por ora esparsos, e com a qual a revista de literatura da Ajuris, por exemplo, tem brindado a grande quantidade dos leitores aos quais é distribuída gratuitamente, e do que testemunham cartas por vezes tocantes chegadas de remotas localidades, escritas por desprivilegiados professores de remotos sertões. É mais um ato de tocante humanismo do poder por excelência onde o homem usa a palavra pela construção de um mundo melhor para sua espécie através do uso jurídico do instrumento maior da humanidade: a sentença, essa manifestação de linguagem comum ao fazer literatura e ao fazer justiça, o que de alguma maneira que apenas vislumbramos é a mesma matéria.
Alberto Crusius, publicado em vários veículos de literatura do país, esclarece que não faz parte do poder judiciário, não sendo juiz nem advogado. Acha difícil, mas às vezes necessário, falar de si mesmo na terceira pessoa...
22 de julho de 2007.